sábado, 5 de janeiro de 2013

"A ontologia da imagem fotográfica", de André Bazin

“A morte não é senão a vitória do tempo”. Desde sempre que houve processos que se destinavam a salvar a aparência do ser, após a morte deste, como por exemplo a mumificação ou o embalsamento. Com o passar do tempo, esses processos deram lugar a outros como o retracto, cuja função é a mesma: salvar o ente de uma segunda morte, a morte espiritual.
Com o aparecimento da perspectiva, a pintura ganhou uma nova vida, pois deixou de ser apenas uma expressão psíquica para ser uma tentativa de identificar o pintado com o que a nossa percepção do real nos diz. Através da perspectiva a pintura ganhou uma nova dimensão, na qual os objectos ganharam uma nova vida e por isso a pintura obteve uma maior aproximação ao que o homem percepcionava. Bazin considera que a perspectiva foi o pecado original da pintura ocidental. Note-se que no século XV o pintor deixou de se preocupar somente em expressar a realidade espiritual para combinar a sua expressão com a imitação mais ou menos integral do mundo exterior. A fotografia é um ponto de viragem da história das artes plásticas. Daqui surge a grande polémica do realismo nas artes, derivado da confusão entre o estético e o psicológico.
Porém, a questão do movimento não estava ainda presente na pintura e por isso era necessário criar uma arte que unisse também esta faceta para que assim se conseguisse imortalizar os acontecimentos tal qual os vemos.
A fotografia surgiu como uma salvação para a pintura e outras artes plásticas, porque fez com que ela se libertasse da sua obsessão pela semelhança, pelo realismo. O cinema e a fotografia acabam por ser as duas artes que melhor expressam o real que percepcionamos e, portanto, a pintura ao lado destas duas artes seria sempre uma arte subjectiva que depende do autor, ao contrário da fotografia que capta o momento como ele é, independentemente do olhar do fotógrafo. Isto porque o fotógrafo apenas irá captar uma imagem, apenas aponta a objectiva e, se assim o entender, irá aumentar a objectiva para captar mais pormenores, mas a imagem que irá sair não depende das habilitações dele, a imagem capta os pormenores que encontra, independentemente se o autor está a vê-los ou não, ao contrário de uma pintura na qual o que vemos foi a mão do pintor que desenhou e, portanto, o produto final resulta da visão do pintor e da sua habilidade. Na fotografia, o fotógrafo apenas tem o papel de escolher o plano que quer captar.
O elemento fundamental da máquina fotográfica chama-se objectiva, porque permite uma representação objectiva da realidade, há uma transferência da realidade da natureza para a representação. Porém, note-se que a fotografia não é uma mera representação, ela é a própria realidade deslocada no universo empírico. É a possibilidade de guardar/conservar a realidade tal como ela é, fazer com que ela não desapareça totalmente.
Porém, note-se que durante muito tempo a fotografia continuou inferior à pintura, pois esta conseguia imitar melhor as cores enquanto que a fotografia apenas captava o real a preto e branco. Pela primeira vez, descreve André Bazin, o processo de imitação do real deixa de depender do homem para depender de um objecto e é neste que está o olho que capta o que queremos imortalizar. O olho humano passa a ser substituído por um conjunto de lentes a que se dá o nome de «olho fotográfico». É com a fotografia que o objecto representado passa a estar mesmo representado, isto é, tornado presente no tempo e no espaço tal como é, através de um papel fotográfico. A fotografia dá-nos uma visão credível acerca do que foi captado, torna-se a arte que capta o real de uma forma mais fidedigna.
Outra faceta da fotografia é a de que ela acaba por se revelar como uma ferramenta que imortaliza momentos, vidas e pessoas, que nos traz à memória acontecimentos que irão perdurar através daquele rectângulo de papel que copiou a realidade num certo momento. “Salvar o ser pela sua aparência”: sobretudo a partir da época moderna, a morte passou a ser encarada não como um acontecimento natural mas sim como um facto trágico, como uma espécie de tabu que causa angústia, ao que a fotografia veio possibilitar um dos sonhos do homem, que é precisamente o facto de “salvar o ser pela sua aparência”. A fotografia capta um momento e conserva alguém que já não está aqui, como por exemplo, alguém que já não está entre nós. A realidade é dinâmica mas a fotografia é estática. Porém, apenas se salva a aparência do ser, isto é, apenas ficamos com uma recordação fotográfica da imagem, do corpo de alguém e não daquilo que ele era. Ela embalsama o tempo, o corpo mas não o ser do homem que viveu. A fotografia não nos transmite sons, cheiros nem toques, apenas nos transmite uma informação visual. O que é o corpo de um homem?
“Não se acredita mais na identidade ontológica de modelo e retracto, porém se admite que este nos ajuda a recordar aquele e, portanto, a salvá-lo de uma segunda morte espiritual”. Bazin acredita que a morte espiritual não surge mais cedo devido à existência de algo material que nos possibilita uma lembrança, uma recordação de momentos vividos ao lado dessa pessoa que já sofreu a morte corporal. Frequentemente ouve-se dizer que ‘um homem só morre quando morre no nosso pensamento’, isto não é mais do que a existência da recordação e da memória. A fotografia veio avivar as memórias, veio manter o homem morto, vivo! Vivo no pensamento daqueles que o recordam.
«A fotografia vem a ser, pois, o acontecimento mais importante da história das artes plásticas», isto porque a fotografia permitiu à pintura ocidental que esta deixasse a sua obsessão com o realismo, com a imitação e permitiu que esta encontrasse a sua autonomia estética. Foi desde o aparecimento da fotografia que a cor devorou a forma, porque esta já não tinha mais importância imitativa.

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