sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Apreciação crítica ao espetáculo "Unbounded"

Hoje inauguro uma nova área no blog, num setor que me diz muito por reunir duas paixões: a filosofia e a dança. Hoje escrevo e partilho convosco a minha primeira crítica (no bom sentido da palavra) da dança. O alvo é o espetáculo intitulado "Unbounded", de Romulus Neagu que estreou no Teatro Viriato no passado dia 27 de setembro pelas 21h30.
Começo pelo figurino, simples, discreto e prático, não se tratasse de umas calças de fato de treino com uma camisola de algodão que a meio do espetáculo é retirada, servindo para limpar as gotas de suor que escorrem pelo rosto do intérprete extenuado pela azáfama coreográfica que pretende retratar o processo de individualização no contexto social e, analogamente, no contexto artístico. Mas já la vamos... Antes, devo ainda sublinhar o local onde a peça foi apresentada. No palco, com uma aproximação ao público sem marcação de lugares e desde logo João Santiago relembrava-nos que antes de se dar o clique da "ação" a peça já estava ali, à nossa frente, pronta e (pro)ativa. O intérprete começa sentado numa cadeira, de lado do palco, olhando em frente, calma e tranquilamente. Levanta-se, dirige-se para o centro do palco e inicia movimentos leves que exploram a sua cinesfera. Torções dos membros superiores são repetidas, partilhando momentos com as linhas retas que estes mesmos membros vão explorando. À primeira vista, dava a impressão que estávamos num momento de exploração do próprio corpo, da investigação dos limites dos membros, da procura do espaço que o corpo (pode) ocupa(r). Mas era mais do que isso, tratava-se de uma busca do seu espaço, enquanto pessoa e enquanto intérprete. O jogo de luzes suave, reafirmava as posições do intérprete que, sempre com um rosto passivo nos fazia focar no seu corpo, objetificado e presente enquanto forma e conteúdo de uma exploração que ia para lá do visível. Pude constatar que existiram três partes bem definidas e delineadas, contudo, gostaria um dia de conversar e confirmar esta minha interpretação... 
A primeira parte foi tão delicada que o nível médio foi o mais explorado, com as torções dos braços, as linhas retas dirigidas para as diversas direções e nos três planos e ainda um controlo exímio do corpo que o fazia parecer inaudível mas semelhante a um tronco secular. 
Uma segunda parte explorou o nível inferior, já com uma maior abertura dimensional e com um exímio trabalho de chão. Cada passo, cada movimento, cada suspiro, cada sopro, faziam-nos pensar na coerência e consistência de tudo o que víamos, pois era como se todos os passos se unissem e fossem só um. Numa visão holística (e como a sinopse do espetáculo nos remetia para o desenvolvimento humano e a criação artística) podia-se assistir a uma tentativa (bem conseguida) de dar forma a esse processo, um processo contínuo, tal como o movimento que também em si era ininterrupto. Do trabalho de chão destaca-se também os momentos de apoio facial invertido que estancavam uma imagem mas, mais do que isso, colocavam em suspenso qualquer tentativa de azáfama. Os movimentos que os membros inferiores faziam, leve e suspensamente, nesta posição punham a nossa visão e compreensão em câmara lenta, um slow motion perfeito que por vezes tanto desejamos ter na nossa vida, no tal "desenvolvimento humano". Destaco ainda neste segundo momento do espetáculo os saltos que nos faziam viajar para o nível alto e voar com o intérprete para a relação do indivíduo com a própria vida, cheia de desafios que por vezes nos fazem querer voar. Poéticas de parte, a segunda parte ficou ainda marcada pela desconstrução das posições de braços codificadas da dança clássica, sendo ali renovadas e reformuladas. Quereria o artista perguntar-nos até que ponto poderemos questionar pré-conceitos ou conhecimentos admitidos como certos? Quereria o intérprete questionar os limites da nossa inventividade? Ou quereria o performer indicar-nos apenas que podemos ser criativos com a tradição que nos é legada, sem que isso seja algo que nos determine mas apenas algo que nos condiciona?
Finalmente, na terceira parte, voltamos ao tempo suspenso, com um jogo de luzes (ainda mais) incrível que projetava caminhos estreitos e retos no chão e que se entrecruzavam. O intérprete termina a peça com o tronco nu, saindo a caminhar do palco, cansado mas obstinado na sua tarefa de ser ele próprio. Se UNBOUNDED me fez querer explorar os limites do meu corpo e procurar o meu próprio espaço, Romulus Neagu e João Santiago fizeram com que viesse, não só no caminho para casa como ainda hoje, com uma pergunta na cabeça: Quais são os limites entre o bailarino e o indivíduo que o habita? Até que ponto é que o indivíduo que dança, ali no palco, não contamina com as suas crenças e experiências, o artista que deve representar? Será bom deixarmos que o artista que somos influencie o ser humano que devemos ser, ou o contrário? Pensemos nestas questões e aplaudamos UNBOUNDED e mais uma encomenda excelente do Teatro Viriato.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Uma história, uma manta de retalhos e um livro

O 3ºB da Escola Básica nº1 de Arganil - aquela turminha que de vez em quando recebe uma visita minha para filosofarmos em conjunto - participou num concurso levado a cabo pela APEFP (Associação Portuguesa de Ética e Filosofia Prática) onde tinham que inventar um conto. O concurso foi aberto a todo o país e tinha como objetivo a publicação de um livro ("Filosofia, Crianças e Contos"). E não é que a nossa história figura neste livrinho? Os nossos meninos esforçaram-se e (sem a ajuda dos adultos mas ao mesmo tempo sem terem plena noção disso) escreveram em redor das teorias realista e idealista. Deixo-vos com algumas fotografias do livro e dos nossos pequenos pensadores (vejam bem a sua alegria) e ainda com o conto em primeira mão.

"Magia"

     Num dia de sol, numa aldeia mágica, Eva estava com os pais a fazer um piquenique.
   Depois de comer alguma coisa, Eva foi com o seu cão dar um passeio. Como Eva tinha uma criatividade muito boa, começou a imaginar o seu cão com cabeça de rato, um cavalo com cabeça de gato e uma galinha com cabeça de lagarto. Nós sabemos que essas coisas não podem acontecer mas, como aquela aldeia era mágica tudo era possível.
    Ao olhar para o cão, Eva ficou baralhada.
    - Como é que tu estás tão estranho? - comentou Eva.
    - Eu não estou estranho! Tu imaginaste-me assim, por isso, sou assim. - respondeu o cão.
    Eva foi rapidamente ter com os pais à zona do piquenique e disse:
    - Mãe! Pai! Acho que estou a ficar maluca!
    - Porquê minha linda? – interrogaram os pais.
    - Porque estou a ver coisas que só deveriam estar na minha imaginação!
    - Que tipo de coisas? – perguntaram os pais.
    - Neste momento estou a ver um cavalo com pernas de avestruz.
    Os pais de Eva tiveram de comer muito rápido, pois tinham de levar Eva para casa, que se situava no cume da montanha.
   Quando chegaram a casa foram à cozinha ver se tinham a poção certa para resolver aquele problema.
    - Mas que azar. - disse a mãe.
    - Podes crer querida. – respondeu o pai. Nenhuma destas poções é adequada aos sintomas que ela apresenta.
    Só lhes restava uma opção: levá-la ao cientista louco.
    Desceram a montanha e quando chegaram a casa do cientista ele examinou-a da cabeça aos pés mas … não descobriu nada.
    - Eu cá não descobri nada mas tenho um amigo que pode saber e ter a poção certa para a resolução do problema. – disse o cientista.
    - E por acaso sabe onde está esse seu amigo? – perguntaram os pais.
    - Sim, é um pouco longe daqui, numa aldeia chamada Indára.
   Os pais ficaram agradecidos pela informação e levaram-na até Indára. Quando lá chegaram procuraram em todas as casas e, por fim, quando chegaram à última casa, bateram à porta e disseram:
    - Boa tarde! Procuramos o amigo do cientista.
    - Sou mesmo eu! Mas quem fala?
    - É o senhor Fernando e a senhora Naômi. – responderam os pais de Eva.
    - Entrem por favor. – disse o amigo do cientista. O que procuram?
    - Queremos que nos diga o que tem a nossa filha. – disseram os pais.
    - Que problema é que ela tem? - perguntou ele.
    - Ela anda a ver coisas que não existem. – afirmaram os pais em coro.
    - Eu não sei resolver esses problemas mas, tenho um colega que sabe.
    - Onde é que ele vive? – perguntaram os pais de Eva.
    - Em Lavanda, uma pequena aldeia perto daqui! - disse o amigo do cientista.
   Os pais ouviram, agradeceram ao amigo do cientista e, no dia seguinte, partiram. Ao chegarem à aldeia de Lavanda repararam que havia um grupo de pessoas na rua disfarçadas, pois era carnaval (o carnaval daquela terra era diferente, pois as pessoas usavam a sua magia para se transformarem em comida, por exemplo: pizzas, ovos, batatas fritas, salsichas, pipocas, etc.).
   Bem, como era carnaval, as estradas estavam cortadas e tiveram que estacionar num parque longínquo. Saíram do carro e foram ao centro da aldeia procurar o colega do amigo do cientista maluco. Depois de procurarem em várias casas finalmente encontraram a sua. Tocaram à campainha e quem veio abrir a porta foi um “Robot”, empregado do cientista. Os pais de Eva assustaram-se e fugiram a sete pés mas, a Eva não teve medo do “Robot” e, ao olhar para ele, imaginou-o com a cabeça de “Waflle” e o robot convidou-a a entrar:
    - Olá pequeno “Robot”! Os meus pais ficaram com muito medo de ti por teres esse aspeto muito estranho, mas eu não sou como eles, não tenho medo de ti.
    - Laaaaaaa. – disse o “Robot”
    - O que é que significa isso? – questionou a Eva.
   E, antes de o “Robot” responder, o cientista apareceu de repente.
   - O que é que procuras miúda esquisita? – perguntou ele.
   - Eu vim aqui para resolver os problemas da minha cabeça. – disse Eva.
   - E quais são esses
 problemas?
   - Eu imagino que as pessoas e animais têm cabeças estranhas, por exemplo o “Robot” tem cabeça de “Waflle” e o senhor tem cabeça de leitão!
   - Como te atreves a falar assim comigo? – questionou o cientista.
   - Desculpe senhor, mas pediu para exemplificar e foi o que fiz. – respondeu Eva.
    - Acho que sei qual é o teu problema.
    - E qual é senhor? – perguntou a Eva muito nervosa.
    - Tu és muito criativa! – disse o cientista.
    - E isso é mau? – interrogou Eva.
    - Não, mas nem toda a gente compreende!
    - E porquê? – continuava Eva.
    - Porque só é criativo quem gosta de sonhar! – disse-lhe o cientista.
    - Não pode ser! – afirmou Eva
    - É verdade!  - exclamou ele.
   Ao ouvir aquilo, Eva saiu a correr e correu, correu, correu até ficar cansada.
   Nisto acordou e apercebeu-se que tudo não tinha passado de um sonho. Mas tinha sido tão real que ela mal acreditava e, para confirmar foi procurar os seus pais que felizmente estavam na sala, a ver televisão. Ela contou-lhes o seu sonho e eles riram-se muito, pois a história era engraçada.
   - Eva minha querida filha, os sonhos não passam de sonhos e são só de quem os tem.
   E os três passaram a noite juntos, em família.
Fim.






Agradeço especialmente à professora titular, Maria dos Anjos por toda a dedicação. É preciso gostar-se muito do que se faz e perceber o valor destas atividades e da própria Filosofia para dispensar tempo da sua aula para participar nestes concursos, ler histórias, escrever contos e dar asas à criatividade dos seus pequenotes.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Odiar ou não odiar? - Filme "American History X"

Hoje seria suposto lerem uma crítica de um livro. No entanto, após o ter visto, optei por fazer uma análise do filme “American History X”.
Com o título português “América Proibida”, realizado por Tony Kaye e escrito por David McKenna, a trama do filme desenrola-se, sobretudo, em torno de Derek (interpretado por Edward Norton) e do seu irmão Danny (Edward Furlong), analisando através deles as consequências e repercussões do ódio irracional no distrito de Venice Beach, em Los Angeles.
O filme mostra dois planos distintos diferenciados pela sua cromia: o plano de presente, ilustrado a cores e o plano do passado, a preto e branco.
No plano do passado, o filme começa com um crime, por Derek Vineyard (sujeito de convicções neonazis) que mata dois indivíduos de raça negra que tentavam assaltar a sua carrinha. Devido à brutalidade dos atos Derek é condenado à prisão.
Por sua vez, o presente remonta a três anos após os homicídios, no dia em que Derek é libertado. Neste dia, Danniel (Danny) é chamado ao gabinete do diretor da escola, devido a uma redação de história que tinha escrito acerca do livro “Mein Kampf” como um exemplo de luta pelos direitos civis. Como medida, o diretor assume a lecionação diária das aulas de história a Danny, às quais apelida de “American History X”, exigindo-lhe uma nova redação para o dia seguinte, onde Danny analise e interprete os factos que levaram à prisão do seu irmão e a sua repercussão para a sua vida e na sua família.

Deslindado em parte o título do filme, resta-me fazer uma caraterização das personagens, para que melhor se possa entender o filme e os questionamentos que levanta.
Derek é um skinhead, apresentando uma mentalidade supremacista sobre a raça negra e abomina as minorias étnicas residentes nos EUA. Estes pensamentos parecem ser resultado de um conjunto de factos, a começar pela educação do pai que criticava a ação afirmativa dos negros; a morte do pai, bombeiro de profissão que acaba por morrer durante um incêndio num esconderijo de traficantes de droga; e a influência de Cameron, um dos maiores propagandistas da cultura skinhead nos EUA. Canalizando a sua raiva e sofrimento pela morte do pai e, instigado por Cameron, Derek funda o D.O.C., de modo a que os brancos não sintam medo no seu próprio bairro. Recrutando outros indivíduos que estavam saturados de se submeterem aos indivíduos das outras raças, acabam por vandalizar diversas lojas que não estejam sobre a alçada dos brancos.
Danniel idolatra o irmão.  Todos os seus atos são no sentido de seguir o irmão e de obter a sua aprovação e, por isso, segue fielmente as mesmas crenças e os mesmos companheiros.



Feito um resumo do filme analisemos e interpretemos as questões que este levanta:
Se um professor pedir uma recensão sobre um livro à escolha e se um aluno escolher a obra Mein Kaft, isso é errado? (Nomeadamente como um exemplo de luta pelos direitos civis?)
Os negros são mais criminosos que os brancos? (Este é um dos argumentos usado por Derek para justificar o seu ódio) Ou será um resultado da pobreza e das desigualdades sociais, como alega Davina (irmã de Danny e Derek)?
Quando uma pessoa não concorda com as leis vigentes é legítima a desobediência?
É legítimo o Estado gastar dinheiro com os imigrantes?
É errado ler livros de outras culturas, num programa escolar? Se somos brancos só devemos ler literatura branca?
Não devemos conhecer o inimigo? Ou só podemos odiar aquilo que conhecemos?
Somos responsáveis pelos exemplos que damos?
Devemos legitimar todos os comportamentos policiais só porque se agiu com autoridade?

Procurar garantir o respeito pelas diferenças culturais e preservar a igualdade de direitos para todos não são tarefas fáceis. O filme mostra isso em diversos pontos e chega até a abordar questões que permanecem muito atuais:
- veja-se o exemplo de Rodney King, caso discutido no filme, acerca do uso de violência excessiva por parte da polícia e compare-se aos muitos casos que têm vindo a ser notícia ainda nos dias correntes. Aqui e aqui
- as injustiças e práticas desiguais que diferenciam as raças. O exemplo dado no filme leva-nos a pensar o seguinte: como é que um “branco” matou dois “pretos” e sai da prisão ao final de 3 anos? E um “preto” ao assaltar uma loja e roubar uma televisão, deixando-a cair nos pés de um polícia, é acusado de agressão ao polícia e condenado a 6 anos de prisão? Não será isto um claro exemplo de abuso de autoridade? Alusivo a este caso, podemos ver um análogo, aqui;
- Até que ponto a ascensão, prémios e elevação da raça negra na sociedade não é feita com base no mérito e nas atitudes, mas sim devido à imposição das igualdades sociais?


Veja-se o exemplo das cerimónias dos Óscares: em 2015 e 2016 a Academia de Cinema dos Estados Unidos nomeou atores exclusivamente brancos, com a cerimónia de 2016 a ser marcada pelo hastag #OscarsSoWhite. Em contrapartida, o ano de 2017 bateu o recorde de artistas negros nomeados para o óscar. Terá sido mérito ou uma luta contra os estereótipos?












O filme pode ser discutido no âmbito dos padrões culturais e da identidade cultural, pois mostra como um indivíduo vai aperfeiçoando a construção do seu ser com base na integração num dado grupo social, através das regras, valores, crenças modos de fazer, agir e ser.
American History X mais não é do que um relato de alguém que faz uma análise do percurso da sua identidade cultural, mostrando a definição do seu modo de ser por referência aos grupos culturais com os quais partilha os mesmos ideais e que se inscrevem no cabelo, no corpo, na pele, nas decorações, nos atos e nas atitudes. De tal forma que, ao olharmos para o indivíduo conseguimos localizá-lo como um skinhead dos anos 90. O filme é um exemplo explícito de uma subcultura que vai buscar influências aos padrões culturais da Alemanha Nazi e à propaganda supremacista de Hitler.É também elucidativo da existência da diversidade cultural dentro de uma sociedade e de como as culturas podem ser dinâmicas, pois os seus padrões e a sua identidade cultural podem sofrer alterações, sobretudo através do contacto com outras diferentes culturas.

Não posso acabar sem laçar o desafio a quem viu o filme, de questionar o seu final paradoxal. O culminar dos acontecimentos dá ou não razão à diversidade cultural?

Termino com a citação final do filme: “A minha conclusão é que o ódio é um peso. A vida é curta demais para se estar zangado o tempo todo. Não vale a pena.”

sexta-feira, 19 de maio de 2017

A dúvida angustiante de um aluno e as respostas dos professores

O texto de hoje é um pouco comprido, pelo que desde já pedimos desculpa pela sua extensão. Contudo, não o quisemos dividir em várias publicações para que todos tivessem acesso às 4 respostas motivadas pela pergunta de um aluno curioso do 12º ano, o Luís Fernando. Desafiei há uns tempos o Luís a escrever sobre o seu interesse perante a disciplina de Filosofia e, no fim do seu texto, o Luís lançou-me uma pergunta. Reuni de imediato reforços para responder a uma questão tão importante, por isso, participam neste artigo os Professores Pedro Casaleiro e Susana Pais (residências habituais do blog) e ainda a Professora Vanessa Silva. O resultado foi este:

O que me motiva em Filosofia? - pelo aluno Luís Fernando


O “caminho” da Filosofia tem-me iluminado desde o contacto com a disciplina, desde aquilo que se dá na mesma, as perguntas que ela evoca e aquilo que ela abrange na sua totalidade. Por exemplo, uma das perguntas que mais mexe comigo é a questão de saber porque é que a nossa vida é tão rotineira. Porque é que tenho que apanhar o autocarro sempre a mesma hora? Que ter um horário específico para a escola fazendo o mesmo todas as semanas? Ter que jantar à mesma hora todos os dias? Outra das perguntas que me assola é saber se o ser humano viveria bem sem extremos. O ser humano passa a vida a exagerar, na política, nos desportos ou nos hábitos alimentares, seja qual for o assunto. A sociedade nunca tenta arranjar um meio-termo, acabando por desrespeitar uns aos outros. E por falar em sociedade, porque é que as pessoas se acham superiores quando refutam um argumento? Confesso que esta questão é a que me intriga mais. Não entendo porque é que quando uma pessoa refuta o argumento de outra, se acha superior. Isto acontece bastantes vezes e acho inconcebível, porque o objetivo da argumentação não é ver quem é melhor do que o outro, mas sim o progresso da sociedade.
É difícil explicar o que sinto quando entro em contacto com a Filosofia, pois acho que não existe um sentimento, mas uma espécie de estado de espírito em que tudo desaparece e o mundo torna-se numa utopia. Quando filosofamos, “tudo desaparece”, pois a Filosofia transporta-nos para um mundo diferente, em que não existem preconceitos, injustiça, ignorância, extremos... Um mundo que nos leva à procura de respostas para qualquer problema
As razões que me fazem seguir Filosofia, são: o facto de me querer completar enquanto ser humano, seguindo os meus valores e lutar por aquilo que amo de verdade. Por outro lado, quero lutar contra a ignorância, instruir-me e lutar contra uma sociedade que desvaloriza as humanidades. As humanidades têm perdido identidade ao longo dos anos, e desprezar uma área como esta é completamente inadmissível. As humanidades levam-nos a ver o mundo de outra maneira, pois apesar de muitas pessoas dizerem que esta área não serve para nada, sem a mesma o mundo seria bastante diferente, por exemplo, não foi preciso um microscópio ou uma calculadora para abolir a escravatura e tal foi um grande progresso na sociedade. Não querendo dizer com isto que desprezo a área das ciências, pois acho tão importante como as humanidades para o progresso da sociedade, apenas acho que tem que haver um meio termo para ambas.
Quando digo que quero seguir Filosofia, a reação da maioria das pessoas é, “Meus Deus… Filosofia… que seca…”, ou então a reação dos meus pais, que é a que gosto mais, “O que é que isso te dá para o Futuro!”. O meu objetivo em seguir esta área é completar-me enquanto ser humano e seguir os meus valores, seguir aquilo que gosto, mas muitas pessoas, como o caso dos meus pais, não entendem o meu lado espiritualista. Seguir um curso como o de Filosofia é um desafio, um desafio que quero completar na minha vida, de acordo com os meus valores, pois prefiro viver a fazer aquilo que amo do que viver a fazer algo que a sociedade me impõe.
Termino com uma questão: Será o ensino, uma boa área a seguir da filosofia?


Resposta da Prof.Inês de Castro

Enveredar por uma área como o ensino significa ter coragem e determinação para perseguir os valores em que se acredita. Ser professor é ser capaz de transmitir conhecimentos e, sobretudo, de despoletar no aluno o desejo de aprender. Para isto, é imprescindível que o elemento “amor” esteja presente. Um professor que não ame a sua profissão nunca deveria ter seguido este caminho, podendo ter optado por vias mais narcísicas como a investigação, onde poderá despender o seu tempo consigo próprio. É claro que no mundo da investigação e da escrita também nos cruzamos com os outros, com outros autores, com livros que nos apelam, que nos tocam, que nos intrigam, com palavras que nos dão que pensar. Mas ser professor é fazer isso e poder ao mesmo tempo levar as leituras e investigações para um espaço de partilha. É poder estar em constante atualização e oferecer aos alunos a possibilidade de se espantarem.
Ser professor é ser mestre, isto é, é ser capaz de perante não uma mas várias turmas de dezenas de jovens, instigar a sua criatividade, a sua capacidade de reflexão, o seu espírito crítico e, sobretudo, o amor por aprender sempre mais. Seguir a vida do ensino é ter uma liberdade incondicional no que diz respeito à possibilidade de moldar crianças e jovens, formando-os, ou seja, significa uma responsabilidade colossal que deverá ser pensada e ponderada de forma séria. O mestre é aquele que está presente, que ajuda o seu discípulo a trilhar o seu caminho mas que, ao mesmo tempo, oferecendo-lhe as ferramentas, não lhe dá as respostas. É preciso ensinar a pensar. Aqui entra a Filosofia. Ninguém melhor do que Ela para saber ensinar a amar o conhecimento, a sabedoria. Ser Professor de Filosofia simboliza ser semeador de espíritos curiosos, atentos que questionam, indagam e investigam. Um professor de filosofia é aquele professor sempre ativo, dinâmico, que problematiza tudo o que o rodeia e dá que pensar, isto é, a própria vida. Afinal, não viveremos certamente para habitar um mundo de olhos tapados, sem ir à raiz dos verdadeiros problemas que atormentam a humanidade.
Hodiernamente, seguir Filosofia - e a via de ensino - significa não ter receio de estatísticas, significa ir contra pré-conceitos e, principalmente, significa ser fiel à própria vida. Vivemos para nos espantarmos com a nossa existência. A filosofia pode não nos dar respostas absolutas, mas, melhor ainda, dá-nos ferramentas para podermos ser humanos. Ao contrário das máquinas ou do mundo vegetal, nós homens podemos admirar-nos, perguntar, problematizar, argumentar, defender, acusar, deliberar, decidir. Ser professor de Filosofia é ser um instigador de seres humanos e não de jovens acríticos que percorrem um ensino apenas por cumprirem o seu dever e obrigatoriedade escolar. Que não nos deixemos levar pelas massas, assim nos ensinava Platão. Portanto, aclamemos a sabedoria e sigamos o seu caminho, esperançando um futuro melhor, pois, se desempenharmos bem o nosso papel de fomentadores do amor à sabedoria, faremos com que várias dezenas de jovens que passaram por nós fiquem marcados por essa curiosidade e, inevitavelmente, seja qual for o rumo por que cada um deles opte, irão ser adultos mais conscientes, mais éticos, mais sensíveis e, mais humanos! Um professor de filosofia tem a oportunidade de tornar os homens mais humanos. Um professor de filosofia só poderá ser feliz na sua condição de homem angustiado pelas perguntas que o atormentam, porque no fim de contas, ele é dos poucos homens que não vive a vida a dormir. Está desperto, está consciente, está atento, está a questionar-se constantemente e a procurar respostas para as perguntas que a cada segundo se multiplicam. Ser filósofo é ser um ser insone. Ser professor de filosofia é ser difusor de um espírito atento, crítico, ponderado, fundamentado, verdadeiramente humano.
Por último, e elencando as possibilidades práticas, não queria deixar de enumerar as várias vias que, seguindo o ensino, um estudante de filosofia, pode optar, são elas: professor no ensino secundário público, professor no ensino secundário de escolas privadas, professor de AEC’s (Atividades Extracurriculares), formador em áreas da Filosofia Prática, como a Filosofia para Crianças, formador em áreas que o Centro de Emprego disponibiliza, explicador particular ou explicador integrado em centros de explicações. Um bom professor de filosofia sabe reinventar-se e, por isso, o desemprego nunca será uma opção, afinal, ser filósofo faz parte de si mesmo, não se trata de vestir a bata e sê-lo apenas num laboratório. É um estilo de vida que não nos abandona e que nos compromete em cada ação, pensamento e discurso. Ser filósofo e/ou professor de filosofia é sermos nós próprios, cada vez mais nós próprios.


Resposta da Prof.Susana Pais
A resposta pessoal a esta pergunta é a própria filosofia. A filosofia ensinou-me o que é ter paixão por aquilo que se faz. Toda a minha vida cresci na ambição de saber mais e de aguçar a minha curiosidade pelo conhecimento. A filosofia foi o culminar desses objetivos. Na filosofia encontrei a partilha das minhas metas e a determinação necessária para a vida.
Não é fácil estarmos a enveredar por uma área que sabemos que a curto prazo possivelmente não nos dará emprego garantido. Muitas vezes a frustração far-se-á notar, sobretudo no fim, quando acabamos e pensamos, e agora? Ainda para mais, com muitos ingénuos a insistirem: “tantos anos a estudar, para agora não teres emprego!” Mas pensemos: temos o conhecimento. E essa é a arma dos poderosos. Com ele podemos mudar o mundo a qualquer altura, seja a leccionar, a dar explicações, formações, etc. Essa mudança é ainda mais visível na educação, com a transmissão do nosso conhecimento às gerações vindouras. Um professor tem o poder de munir o aluno, inspirando-o e dando-lhe instrumentos para um dia também ele fazer a diferença. Um professor é um elemento ativo de uma cadeia inspiradora, que dá um pouco de si a cada ser com o qual se depara.
A educação, os valores, o espírito crítico não se restringem à sala de aula. A filosofia não se restringe à sala de aula. O seu objeto de estudo é a realidade e portanto, é a toda a realidade que se destina. A utilidade do curso transcende em muito o meio académico.
Quero com isto dizer, que tal como a filosofia nos ensina, não podemos assentir com o rebanho, temos que nos revoltar e ir além das evidências.
A filosofia ensinou-me a não desistir dos meus objetivos, pois quanto mais duros os obstáculos, maior é a intensidade da vitória.
São muitas e óbvias as clarividências sobre a escolha pelas letras ou por áreas como a do ensino. Mas pensemos, no culminar de tanta robótica, de excessos de tecnologia e evolução digital, quando vamos pensar no bem-estar mundial, mental e humano?
Hoje, e sempre, devemos em primeira instância pôr em primeiro lugar os nossos sonhos, independentemente da possibilidade/impossibilidade da sua realização. Quer seja o sermos astronautas, quer seja a ensinar alguém para ser astronauta.

A filosofia e o ensino da filosofia são áreas para alguém que procure enaltecer o seu conhecimento ao mesmo tempo que instigue os outros a conhecerem-se melhor a si próprios e ao mundo que os rodeia. Pese embora o facto de ser uma área com saídas profissionais limitadas, o retorno intelectual e pessoal mune-nos de ferramentas ilimitadas. No fundo, o ensino da filosofia será uma boa área a seguir para aquele que ambiciona conhecer-se melhor a si mesmo e ajudar os outros a conhecerem-se a si próprios.

Resposta do Prof.Pedro Casaleiro

Quem me faz esta pergunta é um jovem que pensa seguir Filosofia. Como qualquer um que o faz, é confrontado com a pergunta: isso dá para quê? As respostas possíveis são poucas, pois aparentemente ninguém anda a contratar filósofos. A resposta mais pronta que alguém sabe dar é: ser professor. É esse um futuro que se pretenda? É importante? Há trabalho?
Quem quer que vá para Filosofia é assombrado por perguntas, e as respostas que tem são poucas, não muito promissoras de um futuro esplendoroso e famoso. Contudo, procurando responder-te, escrevo. Não te consigo dar uma resposta tipicamente analítica e estruturada pelos melhores recursos argumentativos, pela racional lógica dedutiva… Escrevo-te assim:
Imagina que não tens ninguém. Não tens os teus pais, os teus irmãos, as tuas primas, o tio, a madrinha, o avô, até o cão e o gato. Todos desapareceram. Imagina que a eles se seguem os teus amigos, os conhecidos, o padeiro, o homem do café, a mulher do banco e até a polícia sinaleira.
Imagina que estás a atravessar um país que não conheces. Vais a pé e sem mapa. Neste momento não sabes de onde vieste ou para onde vais. Ninguém fala a mesma língua que tu. Imagina que nem as placas no caminho consegues ler.
Imagina que entras numa biblioteca. Uma grande biblioteca na qual nunca tinhas entrado antes. Uma biblioteca que contém todos os livros do mundo. Uma biblioteca para a qual seria preciso utilizar mais de uma vida para ler tudo o que te está disponível.
Agora imagina isto tudo ao mesmo tempo. Estás sozinho e não sabes onde. Tens todo o conhecimento à tua disposição e não tens tempo.
Acredito que é assim que nos sentimos durante toda a nossa vida. Perdidos. Com tantos sinais mas sem saber ler. Sem conseguir pedir direções porque não sabemos para onde vamos. Sozinhos e sem tempo. Sem saber o que fazer com o que sabemos. Sem saber se já sabemos o suficiente. Sem saber se o que sabemos é verdade ou se encontraremos outro livro que venha provar que o último que lemos estava errado.
Seguir Filosofia não muda nada disto... Seguir ensino não muda nada disto... Ninguém consegue dizer um segredo que não conhece, ninguém pode dizer para onde levam os caminhos que entram em terras desconhecidas e, sublinho, ninguém alguma vez leu todos os livros desta biblioteca
No entanto, SIM, vale a pena, SIM, é bom, SIM, vai, SIM, segue em frente. Não há melhor companhia do que alguém que partilha a sua solidão connosco e quando estamos perdidos juntos podemos aproveitar a paisagem. Mas não há nada melhor quando, mesmo não tendo tempo, somos livres de saber e mostrar o que sabemos, e é isto que a Escola deve ser.
A única maneira de crescer é ser-se quem se é. As pessoas tendem a esquecer isto e, por isso, lá aparecem os filósofos, tais parteiros com mais de dois mil anos. Os professores procuram fazer o mesmo. Filosofia e ensino andam de mãos dadas.
Sabias que te podes dar à luz? Sabias que podes ser quem és? Sabias que não és o único à procura de respostas? Sabias que há mais perguntas para além de: quando e quanto é que me pagam?


Resposta da prof.Vanessa Silva

A Filosofia, em especial o professor de Filosofia, leva o aluno à oportunidade de desenvolver um pensamento independente e crítico, ou seja, permite que o aluno experimente um pensar individual. Sabe-se que cada disciplina apresenta as suas próprias características, bem como auxilia a desenvolver habilidades específicas do pensamento que é abordado.
No caso da Filosofia, esta permite e dá oportunidade de realizar o pensamento de maneira bastante pessoal.
O ensino secundário é geralmente considerado pelos professores como uma fase de consolidação da personalidade e dos desejos do aluno enquanto jovem. Aqui, a Filosofia apresenta um papel importante e fundamental no sentido de colaboração para esta consolidação.
A Filosofia é bastante questionada enquanto disciplina. É necessário que os professores se conscientizem de que o ensino não deve ser considerado como apenas a soma de mais uma disciplina. O ideal é um professor responsável por aplicar tal disciplina, tendo em mente o quão necessário é fazer com que os seus alunos não fiquem dependentes de livros didáticos.
Aos professores que se preocupam com a melhor forma de aplicar a Filosofia, não existe uma ordem pronta. Recomenda-se a priorização de práticas que favoreçam a formação dos discentes capazes de desenvolver o seu próprio pensamento crítico, formando cidadãos capacitados para enfrentar as diversas situações que poderão surgir ao longo da vida.
A Filosofia é fundamental na vida de todos os seres humanos, visto que proporciona a prática de análise, reflexão e crítica em benefício do encontro do conhecimento, do mundo e do homem.
Por isso é que ser professor de Filosofia não é uma mera profissão, é uma missão.



E tu, vais seguir o teu caminho?