sexta-feira, 19 de maio de 2017

A dúvida angustiante de um aluno e as respostas dos professores

O texto de hoje é um pouco comprido, pelo que desde já pedimos desculpa pela sua extensão. Contudo, não o quisemos dividir em várias publicações para que todos tivessem acesso às 4 respostas motivadas pela pergunta de um aluno curioso do 12º ano, o Luís Fernando. Desafiei há uns tempos o Luís a escrever sobre o seu interesse perante a disciplina de Filosofia e, no fim do seu texto, o Luís lançou-me uma pergunta. Reuni de imediato reforços para responder a uma questão tão importante, por isso, participam neste artigo os Professores Pedro Casaleiro e Susana Pais (residências habituais do blog) e ainda a Professora Vanessa Silva. O resultado foi este:

O que me motiva em Filosofia? - pelo aluno Luís Fernando


O “caminho” da Filosofia tem-me iluminado desde o contacto com a disciplina, desde aquilo que se dá na mesma, as perguntas que ela evoca e aquilo que ela abrange na sua totalidade. Por exemplo, uma das perguntas que mais mexe comigo é a questão de saber porque é que a nossa vida é tão rotineira. Porque é que tenho que apanhar o autocarro sempre a mesma hora? Que ter um horário específico para a escola fazendo o mesmo todas as semanas? Ter que jantar à mesma hora todos os dias? Outra das perguntas que me assola é saber se o ser humano viveria bem sem extremos. O ser humano passa a vida a exagerar, na política, nos desportos ou nos hábitos alimentares, seja qual for o assunto. A sociedade nunca tenta arranjar um meio-termo, acabando por desrespeitar uns aos outros. E por falar em sociedade, porque é que as pessoas se acham superiores quando refutam um argumento? Confesso que esta questão é a que me intriga mais. Não entendo porque é que quando uma pessoa refuta o argumento de outra, se acha superior. Isto acontece bastantes vezes e acho inconcebível, porque o objetivo da argumentação não é ver quem é melhor do que o outro, mas sim o progresso da sociedade.
É difícil explicar o que sinto quando entro em contacto com a Filosofia, pois acho que não existe um sentimento, mas uma espécie de estado de espírito em que tudo desaparece e o mundo torna-se numa utopia. Quando filosofamos, “tudo desaparece”, pois a Filosofia transporta-nos para um mundo diferente, em que não existem preconceitos, injustiça, ignorância, extremos... Um mundo que nos leva à procura de respostas para qualquer problema
As razões que me fazem seguir Filosofia, são: o facto de me querer completar enquanto ser humano, seguindo os meus valores e lutar por aquilo que amo de verdade. Por outro lado, quero lutar contra a ignorância, instruir-me e lutar contra uma sociedade que desvaloriza as humanidades. As humanidades têm perdido identidade ao longo dos anos, e desprezar uma área como esta é completamente inadmissível. As humanidades levam-nos a ver o mundo de outra maneira, pois apesar de muitas pessoas dizerem que esta área não serve para nada, sem a mesma o mundo seria bastante diferente, por exemplo, não foi preciso um microscópio ou uma calculadora para abolir a escravatura e tal foi um grande progresso na sociedade. Não querendo dizer com isto que desprezo a área das ciências, pois acho tão importante como as humanidades para o progresso da sociedade, apenas acho que tem que haver um meio termo para ambas.
Quando digo que quero seguir Filosofia, a reação da maioria das pessoas é, “Meus Deus… Filosofia… que seca…”, ou então a reação dos meus pais, que é a que gosto mais, “O que é que isso te dá para o Futuro!”. O meu objetivo em seguir esta área é completar-me enquanto ser humano e seguir os meus valores, seguir aquilo que gosto, mas muitas pessoas, como o caso dos meus pais, não entendem o meu lado espiritualista. Seguir um curso como o de Filosofia é um desafio, um desafio que quero completar na minha vida, de acordo com os meus valores, pois prefiro viver a fazer aquilo que amo do que viver a fazer algo que a sociedade me impõe.
Termino com uma questão: Será o ensino, uma boa área a seguir da filosofia?


Resposta da Prof.Inês de Castro

Enveredar por uma área como o ensino significa ter coragem e determinação para perseguir os valores em que se acredita. Ser professor é ser capaz de transmitir conhecimentos e, sobretudo, de despoletar no aluno o desejo de aprender. Para isto, é imprescindível que o elemento “amor” esteja presente. Um professor que não ame a sua profissão nunca deveria ter seguido este caminho, podendo ter optado por vias mais narcísicas como a investigação, onde poderá despender o seu tempo consigo próprio. É claro que no mundo da investigação e da escrita também nos cruzamos com os outros, com outros autores, com livros que nos apelam, que nos tocam, que nos intrigam, com palavras que nos dão que pensar. Mas ser professor é fazer isso e poder ao mesmo tempo levar as leituras e investigações para um espaço de partilha. É poder estar em constante atualização e oferecer aos alunos a possibilidade de se espantarem.
Ser professor é ser mestre, isto é, é ser capaz de perante não uma mas várias turmas de dezenas de jovens, instigar a sua criatividade, a sua capacidade de reflexão, o seu espírito crítico e, sobretudo, o amor por aprender sempre mais. Seguir a vida do ensino é ter uma liberdade incondicional no que diz respeito à possibilidade de moldar crianças e jovens, formando-os, ou seja, significa uma responsabilidade colossal que deverá ser pensada e ponderada de forma séria. O mestre é aquele que está presente, que ajuda o seu discípulo a trilhar o seu caminho mas que, ao mesmo tempo, oferecendo-lhe as ferramentas, não lhe dá as respostas. É preciso ensinar a pensar. Aqui entra a Filosofia. Ninguém melhor do que Ela para saber ensinar a amar o conhecimento, a sabedoria. Ser Professor de Filosofia simboliza ser semeador de espíritos curiosos, atentos que questionam, indagam e investigam. Um professor de filosofia é aquele professor sempre ativo, dinâmico, que problematiza tudo o que o rodeia e dá que pensar, isto é, a própria vida. Afinal, não viveremos certamente para habitar um mundo de olhos tapados, sem ir à raiz dos verdadeiros problemas que atormentam a humanidade.
Hodiernamente, seguir Filosofia - e a via de ensino - significa não ter receio de estatísticas, significa ir contra pré-conceitos e, principalmente, significa ser fiel à própria vida. Vivemos para nos espantarmos com a nossa existência. A filosofia pode não nos dar respostas absolutas, mas, melhor ainda, dá-nos ferramentas para podermos ser humanos. Ao contrário das máquinas ou do mundo vegetal, nós homens podemos admirar-nos, perguntar, problematizar, argumentar, defender, acusar, deliberar, decidir. Ser professor de Filosofia é ser um instigador de seres humanos e não de jovens acríticos que percorrem um ensino apenas por cumprirem o seu dever e obrigatoriedade escolar. Que não nos deixemos levar pelas massas, assim nos ensinava Platão. Portanto, aclamemos a sabedoria e sigamos o seu caminho, esperançando um futuro melhor, pois, se desempenharmos bem o nosso papel de fomentadores do amor à sabedoria, faremos com que várias dezenas de jovens que passaram por nós fiquem marcados por essa curiosidade e, inevitavelmente, seja qual for o rumo por que cada um deles opte, irão ser adultos mais conscientes, mais éticos, mais sensíveis e, mais humanos! Um professor de filosofia tem a oportunidade de tornar os homens mais humanos. Um professor de filosofia só poderá ser feliz na sua condição de homem angustiado pelas perguntas que o atormentam, porque no fim de contas, ele é dos poucos homens que não vive a vida a dormir. Está desperto, está consciente, está atento, está a questionar-se constantemente e a procurar respostas para as perguntas que a cada segundo se multiplicam. Ser filósofo é ser um ser insone. Ser professor de filosofia é ser difusor de um espírito atento, crítico, ponderado, fundamentado, verdadeiramente humano.
Por último, e elencando as possibilidades práticas, não queria deixar de enumerar as várias vias que, seguindo o ensino, um estudante de filosofia, pode optar, são elas: professor no ensino secundário público, professor no ensino secundário de escolas privadas, professor de AEC’s (Atividades Extracurriculares), formador em áreas da Filosofia Prática, como a Filosofia para Crianças, formador em áreas que o Centro de Emprego disponibiliza, explicador particular ou explicador integrado em centros de explicações. Um bom professor de filosofia sabe reinventar-se e, por isso, o desemprego nunca será uma opção, afinal, ser filósofo faz parte de si mesmo, não se trata de vestir a bata e sê-lo apenas num laboratório. É um estilo de vida que não nos abandona e que nos compromete em cada ação, pensamento e discurso. Ser filósofo e/ou professor de filosofia é sermos nós próprios, cada vez mais nós próprios.


Resposta da Prof.Susana Pais
A resposta pessoal a esta pergunta é a própria filosofia. A filosofia ensinou-me o que é ter paixão por aquilo que se faz. Toda a minha vida cresci na ambição de saber mais e de aguçar a minha curiosidade pelo conhecimento. A filosofia foi o culminar desses objetivos. Na filosofia encontrei a partilha das minhas metas e a determinação necessária para a vida.
Não é fácil estarmos a enveredar por uma área que sabemos que a curto prazo possivelmente não nos dará emprego garantido. Muitas vezes a frustração far-se-á notar, sobretudo no fim, quando acabamos e pensamos, e agora? Ainda para mais, com muitos ingénuos a insistirem: “tantos anos a estudar, para agora não teres emprego!” Mas pensemos: temos o conhecimento. E essa é a arma dos poderosos. Com ele podemos mudar o mundo a qualquer altura, seja a leccionar, a dar explicações, formações, etc. Essa mudança é ainda mais visível na educação, com a transmissão do nosso conhecimento às gerações vindouras. Um professor tem o poder de munir o aluno, inspirando-o e dando-lhe instrumentos para um dia também ele fazer a diferença. Um professor é um elemento ativo de uma cadeia inspiradora, que dá um pouco de si a cada ser com o qual se depara.
A educação, os valores, o espírito crítico não se restringem à sala de aula. A filosofia não se restringe à sala de aula. O seu objeto de estudo é a realidade e portanto, é a toda a realidade que se destina. A utilidade do curso transcende em muito o meio académico.
Quero com isto dizer, que tal como a filosofia nos ensina, não podemos assentir com o rebanho, temos que nos revoltar e ir além das evidências.
A filosofia ensinou-me a não desistir dos meus objetivos, pois quanto mais duros os obstáculos, maior é a intensidade da vitória.
São muitas e óbvias as clarividências sobre a escolha pelas letras ou por áreas como a do ensino. Mas pensemos, no culminar de tanta robótica, de excessos de tecnologia e evolução digital, quando vamos pensar no bem-estar mundial, mental e humano?
Hoje, e sempre, devemos em primeira instância pôr em primeiro lugar os nossos sonhos, independentemente da possibilidade/impossibilidade da sua realização. Quer seja o sermos astronautas, quer seja a ensinar alguém para ser astronauta.

A filosofia e o ensino da filosofia são áreas para alguém que procure enaltecer o seu conhecimento ao mesmo tempo que instigue os outros a conhecerem-se melhor a si próprios e ao mundo que os rodeia. Pese embora o facto de ser uma área com saídas profissionais limitadas, o retorno intelectual e pessoal mune-nos de ferramentas ilimitadas. No fundo, o ensino da filosofia será uma boa área a seguir para aquele que ambiciona conhecer-se melhor a si mesmo e ajudar os outros a conhecerem-se a si próprios.

Resposta do Prof.Pedro Casaleiro

Quem me faz esta pergunta é um jovem que pensa seguir Filosofia. Como qualquer um que o faz, é confrontado com a pergunta: isso dá para quê? As respostas possíveis são poucas, pois aparentemente ninguém anda a contratar filósofos. A resposta mais pronta que alguém sabe dar é: ser professor. É esse um futuro que se pretenda? É importante? Há trabalho?
Quem quer que vá para Filosofia é assombrado por perguntas, e as respostas que tem são poucas, não muito promissoras de um futuro esplendoroso e famoso. Contudo, procurando responder-te, escrevo. Não te consigo dar uma resposta tipicamente analítica e estruturada pelos melhores recursos argumentativos, pela racional lógica dedutiva… Escrevo-te assim:
Imagina que não tens ninguém. Não tens os teus pais, os teus irmãos, as tuas primas, o tio, a madrinha, o avô, até o cão e o gato. Todos desapareceram. Imagina que a eles se seguem os teus amigos, os conhecidos, o padeiro, o homem do café, a mulher do banco e até a polícia sinaleira.
Imagina que estás a atravessar um país que não conheces. Vais a pé e sem mapa. Neste momento não sabes de onde vieste ou para onde vais. Ninguém fala a mesma língua que tu. Imagina que nem as placas no caminho consegues ler.
Imagina que entras numa biblioteca. Uma grande biblioteca na qual nunca tinhas entrado antes. Uma biblioteca que contém todos os livros do mundo. Uma biblioteca para a qual seria preciso utilizar mais de uma vida para ler tudo o que te está disponível.
Agora imagina isto tudo ao mesmo tempo. Estás sozinho e não sabes onde. Tens todo o conhecimento à tua disposição e não tens tempo.
Acredito que é assim que nos sentimos durante toda a nossa vida. Perdidos. Com tantos sinais mas sem saber ler. Sem conseguir pedir direções porque não sabemos para onde vamos. Sozinhos e sem tempo. Sem saber o que fazer com o que sabemos. Sem saber se já sabemos o suficiente. Sem saber se o que sabemos é verdade ou se encontraremos outro livro que venha provar que o último que lemos estava errado.
Seguir Filosofia não muda nada disto... Seguir ensino não muda nada disto... Ninguém consegue dizer um segredo que não conhece, ninguém pode dizer para onde levam os caminhos que entram em terras desconhecidas e, sublinho, ninguém alguma vez leu todos os livros desta biblioteca
No entanto, SIM, vale a pena, SIM, é bom, SIM, vai, SIM, segue em frente. Não há melhor companhia do que alguém que partilha a sua solidão connosco e quando estamos perdidos juntos podemos aproveitar a paisagem. Mas não há nada melhor quando, mesmo não tendo tempo, somos livres de saber e mostrar o que sabemos, e é isto que a Escola deve ser.
A única maneira de crescer é ser-se quem se é. As pessoas tendem a esquecer isto e, por isso, lá aparecem os filósofos, tais parteiros com mais de dois mil anos. Os professores procuram fazer o mesmo. Filosofia e ensino andam de mãos dadas.
Sabias que te podes dar à luz? Sabias que podes ser quem és? Sabias que não és o único à procura de respostas? Sabias que há mais perguntas para além de: quando e quanto é que me pagam?


Resposta da prof.Vanessa Silva

A Filosofia, em especial o professor de Filosofia, leva o aluno à oportunidade de desenvolver um pensamento independente e crítico, ou seja, permite que o aluno experimente um pensar individual. Sabe-se que cada disciplina apresenta as suas próprias características, bem como auxilia a desenvolver habilidades específicas do pensamento que é abordado.
No caso da Filosofia, esta permite e dá oportunidade de realizar o pensamento de maneira bastante pessoal.
O ensino secundário é geralmente considerado pelos professores como uma fase de consolidação da personalidade e dos desejos do aluno enquanto jovem. Aqui, a Filosofia apresenta um papel importante e fundamental no sentido de colaboração para esta consolidação.
A Filosofia é bastante questionada enquanto disciplina. É necessário que os professores se conscientizem de que o ensino não deve ser considerado como apenas a soma de mais uma disciplina. O ideal é um professor responsável por aplicar tal disciplina, tendo em mente o quão necessário é fazer com que os seus alunos não fiquem dependentes de livros didáticos.
Aos professores que se preocupam com a melhor forma de aplicar a Filosofia, não existe uma ordem pronta. Recomenda-se a priorização de práticas que favoreçam a formação dos discentes capazes de desenvolver o seu próprio pensamento crítico, formando cidadãos capacitados para enfrentar as diversas situações que poderão surgir ao longo da vida.
A Filosofia é fundamental na vida de todos os seres humanos, visto que proporciona a prática de análise, reflexão e crítica em benefício do encontro do conhecimento, do mundo e do homem.
Por isso é que ser professor de Filosofia não é uma mera profissão, é uma missão.



E tu, vais seguir o teu caminho?



quinta-feira, 11 de maio de 2017

Jogar com Platão - Alegoria da Caverna

Hoje trago uma nova proposta de um dispositivo lúdico baseada na experiência de estágio. Trata-se de um jogo adaptado à Alegoria da Caverna do filósofo Platão.
O dispositivo está dividido em 3 momentos.
No primeiro momento é distribuída a cada discente uma ficha de trabalho, em formato A3, com um fragmento do Livro VII da obra A República, de Platão. Foi pedido a duas alunas que dramatizassem o texto, uma vez que se trata de um diálogo, tendo assim presentes na sala de aula Sócrates e Gláucon. A partir da leitura e análise deste texto advirão outras estratégias que permitirão a identificação, mapeamento, problematização e consolidação dos conceitos essenciais do autor em estudo.
Após a leitura/dramatização, serão colocadas questões dirigidas aos discentes para uma melhor compreensão do texto (termos desconhecidos, recursos estilísticos apontados e/ou sentidos implícitos), sendo que no término da análise de texto, os alunos deverão registar as respostas às quatro questões constantes nesta primeira ficha de trabalho. Após o registo por parte de cada aluno, é pedido ao grupo turma que identifique os termos principais do texto, fazendo-se o posterior registo nas figuras em forma de bandeira presentes na ficha de trabalho.
É neste momento que surge na sala de aula o material lúdico: dois “mundos” e várias bandeiras (com os termos que os alunos coincidentemente identificaram) que terão que atribuir a cada um destes, justificando a sua escolha.
Para este segundo momento do exercício lúdico-didático, sugere-se o auxílio de dois discentes que auxiliarão a atribuição das “bandeiras” a cada “mundo”, justificando as suas opções. Os restantes discentes confrontarão as suas escolhas com as dos colegas, argumentando-as e, em grupo, registar-se-ão as respostas num segundo documento policopiado.
Esta segunda ficha de trabalho entregue a cada aluno contém um esquema que cada um terá que completar, realizando-se assim uma súmula de todos os conteúdos programáticos lecionados na sessão acerca da teoria platónica do conhecimento e das suas implicações, constituindo assim um momento último de recapitulação final dos conteúdos ministrados.

Trabalhos manuais: Utilizei duas bolas de esferovite para a construção dos mundos, as quais pintei com tinta (amarela para o mundo inteligível, representando a cor da iluminação, da verdade; e várias cores para o mundo sensível, que pintei a partir da tinta presente nas minhas próprias mãos que serviram como carimbo, representando a sensibilidade deste) e recortei em papel eva as letras necessárias. Para as bandeiras, basta imprimir as palavras escritas num documento word e colá-las em paus de espetada. Utilizei ainda um retângulo de esferovite que pintei de preto para servir de base aos dois mundos e, para suporte destes, usei ainda dois rolos de papel higiénico, também pintados de cor preta.

Espero que repliquem este momento lúdico nas vossas salas de aula. Depois contem-me o quanto os vossos alunos aprenderam brincando!





terça-feira, 2 de maio de 2017

De 1984 a 2017 - uma viagem reflexiva

O presente texto, proposto pela Professora Inês de Castro, tem como objetivo a análise da obra “1984” de George Orwell, estando subdividido em 4 partes
Primeiramente, caracterizarei a sociedade descrita por George Orwell. Em segundo lugar, estabelecerei a comparação dos traços totalitários, no 1984, com os dos regimes totalitários do séc. XX. Depois apresentarei a reflexão sobre o papel reservado à História pelo regime político descrito em 1984

A ação principal da obra foca-se na Oceânia sendo que a divisão do mundo, descrita por George Orwell, em 3 grandes super-estados: Eurásia, Lestásia e a própria Oceânia. Governada pelo SOCING, o único partido do qual o chefe supremo é o “Grande Irmão”, “…o rosto de um homem dos seus 45 anos, com farto bigode e feições de uma beleza austera”, a Oceânia apresenta uma estrutura social hierarquizada, estando subdividida em 3 classes: “O Grande Irmão” e os membros do Partido Interno, que fazem parte da classe superior; depois temos os membros do Partido Externo - que equivale à segunda classe -, como exemplo disso temos a personagem principal que era Winston; no fundo da hierarquia, temos os “proles”, que representavam 85% da população, não obtinham grande informação e eram pouco esclarecidos, vivendo em condições precárias.
        Toda a sociedade, descrita por George Orwell, era controlada pelo partido. As pessoas eram controladas por telecrãs, cada movimento, gesto e fala era vigiado por aquele miniaparelho, “a voz provinha de uma placa oblonga, de metal, como um espelho baço…”. Notícias, programas e músicas eram controladas, fazendo com que as pessoas que não estivessem a trabalhar estivessem envolvidas em atividades do partido, formatando assim as suas cabeças. Certamente também o ensino era controlado, de modo a formatar as camadas mais jovens da sociedade com os seus ideais. A própria língua chamava-se “novilíngua” e reduzia o vocabulário dos cidadãos, fazendo com que estes não tivessem pensamentos contrários ao regime.
       Mas porque é que as pessoas continuavam a acreditar no regime?
       O que levava as pessoas a acreditar em muitas das barbaridades do regime era o estado de guerra contínuo, muito em parte devido à superprodução.

Comparação dos traços totalitários, no 1984, com os dos regimes totalitários (fascismo/nazismo e comunismo)
     São similares os traços totalitários dos regimes de extrema esquerda e extrema direita com as sociedades descritas no livro, 1984. Primeiramente temos a ausência da oposição política, pois eles eram de tal maneira perseguidos, torturados e até mesmo mortos que a oposição era quase inexistente, como foi feito pelos regimes totalitários (fascista, comunista). Além disso, em 1984, podemos ver que a sociedade era desigual, sendo que só uma pequena parte da população (2%, que eram os membros do partido) deveria governar e, como se não bastasse, existia também um culto ao chefe (“O grande Irmão”) que era considerado um herói (tal como Hitler, Estaline e Salazar).
        Tanto na sociedade do livro como os dos regimes supramencionados existe um estado esmagador que subordina os seus interesses aos da população. Tudo que é dito pelo Partido e elo “Grande irmão” é como um dogma. Outra semelhança dos regimes totalitários é a exaltação do nacionalismo, como exemplo disso temos a comemoração dos resultados das campanhas de produção que nem sempre correspondiam à realidade. Tal como os regimes totalitários, o regime totalitário orwelliano também recorre à ignorância para dominar as pessoas, nomeadamente com o controlo do ensino e o controlo dos média para que pudessem impingir as ideias dos partidos às pessoas (Kraft macht Freude).

Reflexão sobre o papel reservado à História pelo regime político descrito em Mil Novecentos e Oitenta e Quatro
       «Quem domina o passado domina o futuro; quem domina o presente domina o passado.». Se por um lado “quem domina o passado domina o futuro”, o autor mostra-nos que a história é escrita pelos “vencedores” que certamente chegaram ao poder. Logo, os que venceram o “passado” são aqueles que comandam o destino da sociedade. Por conseguinte, “quem domina o presente domina o passado”, pois a história é constantemente alterada por aqueles que estão no poder (os que venceram o passado) que acrescentam, retiram e modificam factos a seu favor.

       Primeiramente, embora que as pessoas não se apercebam, somos cada vez mais controlados, com a internet, com o nosso IP, as nossas compras, as câmaras de vigilância, os nossos telemóveis com a localização GPS e, principalmente, a internet. Tudo o que pesquisamos no Google ou até no Facebook é registado e usado para fazer publicidade de acordo com os interesses individuais.
      O controlo dos media e da propaganda, de George Orwell assemelha-se cada vez mais com o atual. Nem todas a notícias são fidedignas, pois muitas das vezes estão dependentes dos interesses económicos e políticos. A única maneira de lutar contra este fator é apelar pelo nosso espírito crítico, não nos deixarmos manipular. O problema é que há inúmeras pessoas que não têm formação suficiente para perceber ou outras que nem querem mesmo saber. Cada vez menos se vê jovens a ler, a escrever, a “levantarem-se da cadeira” e darem a sua opinião fundamentada. Este é um aspeto importante porque com uma sociedade ignorante há uma enorme facilidade de se instalar um regime igual ou até pior que este. 
       A ignorância, a manipulação e o controlo da nossa vida, são aspetos que se encontram cada vez mais na nossa sociedade.
      Não devemos acreditar em tudo o que nos dizem ou na primeira coisa que aparece na televisão e, essencialmente, devemos estar informados e atentos, não correndo o risco de sermos manipulados. É necessário lutar pela verdadeira democracia e por uma sociedade mais instruída, pronta a viver de acordo com os seus valores e consciente daquilo que a rodeia.       

Luís Fernando
Aluno de Línguas e Humanidades, 12º ano    

sábado, 29 de abril de 2017

As minhas questões inquietantes sobre dança

AS MINHAS QUESTÕES INQUIETANTES SOBRE DANÇA - 1ª parte

Hoje, 29 de abril, celebra-se a dança em todo o mundo de uma forma ainda mais especial para aqueles que se encontram com esta arte diariamente, pois a UNESCO decidiu instituir neste dia, o Dia Mundial da Dança.

Este primeiro texto versará, portanto, sobre a dança, pretendendo ser uma abordagem inicial sobre esta do ponto de vista filosófico. Trata-se de uma reflexão crítica mas bastante pessoal, dada a minha afinidade a esta arte, pois além de Professora (apaixonada) de Filosofia sou também uma Bailarina pré-profissional. 
Por conseguinte, sinto nos meus ombros o peso da tradição estética que se dedicou tão profundamente à teorização da música e deixou o estudo do movimento desvanecer-se, o que fez com que a dança fosse sempre encarada pela sociedade como algo sem fundamento teórico, ao contrário do seu irmão performativo, o teatro, sempre citado em grandes livros e por grandes autores. Seria um enorme disparate dizer que não se pensa a dança em Portugal ou no mundo, até porque temos, felizmente, grandes pensadores que o fazem. Contudo, o que digo e defendo é que a dança foi secundarizada em relação às outras artes e o facto de não ser seriamente teorizada, pensada e discutida, fez com que se lhe atribuíssem as categorias de “hobby”, “desporto” ou “terapia”.

Mas voltando ao Dia Mundial da Dança… Se recuarmos ao séc.XVIII, após o grande triunfo do rei-sol (Luís XIV) encontramos Jean Georges Noverre a defender um ballet pantomima assente na expressividade do bailarino e num coreógrafo que dominava conhecimentos de música, pintura, anatomia ou até mesmo da maquinaria de um teatro. Ideias revolucionárias num tempo em que os maîtres de ballet não eram senão ensaiadores de bailarinos que cumpriam ordens e executavam mecanicamente a técnica da dança. É em homenagem ao seu nascimento que hoje celebramos o Dia Mundial da Dança, que hoje podemos falar no sentimento interior do bailarino, nas emoções de quem dança e nas emoções que quem vê sente. A expressividade tornou-se o ponto de viragem deste século e, três centenas de anos depois, cá estamos nós a pedir aos intérpretes que nos toquem e a desejar sermos tocados.

Mas afinal, o que é a dança?

Dançar é mexer o corpo? Dançar é movimento? Então quando andamos, corremos ou nadamos estamos a dançar? 
Dançar é cumprir uma linguagem técnica? Então e a improvisação, o freestyle, não é dança? Dançar é obedecer a coreografias? 
Basta ter flexibilidade para criar uma sequência rítmica e dizer que estou a dançar? As aulas de dança são dança ou só o são os espetáculos e as performances? 
Como distinguimos um bailarino que dança profissionalmente de um amador? Um dança mais do que o outro? Como medir? Como comparar? Através da sua técnica ou da sua expressividade? Só são dança os movimentos de um bailarino profissional? Os estilos de dança que almejam uma neutralidade na expressão do bailarino são por isso considerados menos dança? 
E quando dizemos que dançamos na discoteca, estaremos realmente a fazê-lo? Basta mover-me com sentido? E o movimento sem sentido de um bailarino profissional, não é dança?

Estas são apenas algumas das questões que habitam no bailado do meu pensamento, questões que me assolam e que me intrigam. 
Saberemos nós o que é a dança? 
Vejo-me perante uma situação que se assemelha ao problema da definição de filosofia. Talvez as grandes formas da existência humana não se deixem aprisionar numa só definição, num só ponto de vista, numa só interpretação. Talvez o belo destas duas artes seja o facto de nos darem que pensar, de nos darem a liberdade de exprimirmos o que sentimos acerca do que apreendemos do mundo, do que nos rodeia. A dança, tal como a Filosofia, oferece ao homem a possibilidade de se reinventar.
O que confere a singularidade a estas expressões humanas é, sem dúvida, porem-nos a caminho de algo que não conhecemos.

Exercício prático de sala de aula:
Inspirada na obra Phenomenology of dance, de Maxine Sheets-Johnstone, deixo aqui a sugestão baseada na pergunta: "Quando vemos uma dança, o que vemos?" ou na língua original: "When you see a dance, what you see?". 

Proponho que o professor execute/mostre vídeos de alguém a executar/peça a um(a) aluno(a) que execute alguns movimentos que fazem parte do vocabulário de dança clássica, movimentos simples, básicos, como as posições dos pés e dos braços, seguido de port-de-bras e de alguns tendus. O professor perguntará de seguida se o que os alunos estão a ver é dança ou não, pedindo que justifiquem. De seguida, o professor mostra um vídeo de um bailado/executa algumas frases/pede para o(a) aluno(a) executar de um bailado que contém esses passos que fazem parte da linguagem técnica basilar da dança clássica na variação que estão de momento a ver. Perante tal fluidez, o professor perguntará novamente à turma se o que veem agora é dança e que diferenças tem do momento anterior. O objetivo é que se reflita a relação entre a dança e a técnica. Tratar-se-á de uma relação conjuntiva, exclusiva ou disjuntiva, isto é, a dança é dança porque tem técnica subjacente, a dança é dança porque não tem técnica, porque é livre; a dança é dança porque passou pela técnica como um meio de preparação do corpo para dançar e, neste ponto, a técnica não é dança. 

quarta-feira, 26 de abril de 2017

"Campos de concentração para gays"

Além dos povos parecerem ter memória curta e esquecerem-se de sofrimentos atrozes como os associados à II Guerra Mundial, são muitas as situações que hoje em dia nos fazem refletir (ou deveriam fazer) sobre a aproximação à crueldade e maldade associadas à governação hitleriana.
Numa altura em que presenciamos a ascensão de Trump ao poder, o Brexit, os avanços da extrema direita na Europa, a eminência de uma guerra entre a América e a Coreia do Norte, que eclode apenas para testar o poderio e teimosia de cada uma das potências; a guerra na Síria; a crise dos refugiados a nível mundial; é urgente PENSAR!
No fim de contas,
A verdade ganha mais com os erros daquele que, sem o estudo e a preparação necessários, pensa por si do que com as opiniões verdadeiras daqueles que só as têm porque se impedem a si mesmos de pensar. (…) Já houve, e talvez volte a haver, grandes pensadores individuais numa atmosfera geral de escravatura mental. Mas nunca houve, nem alguma vez haverá, nessa atmosfera, um povo intelectualmente ativo.(MILL, John Stuart. Sobre a liberdade. Lisboa: Edições 70, 2006, p.75.)
Neste sentido, trago hoje a análise e desbravamento de uma notícia, entre muitas outras que nos assolam, vem relembrar-nos que vivemos no limiar entre uma mentalidade que se afirma moderna e atos e pensamentos que apenas se podem apelidar de retrógrados: Gays atirados para campos de concentração
Foi este o título que encontrei de uma notícia, não do século XX, mas no dia 19 de abril de 2017. Após mais alguma pesquisa, encontrei mais informação (embora em português do Brasil) aqui e aqui.
A notícia refere-se à descoberta de uma prisão ilegal que serve para deter e torturar gays, na Chechénia (República da Federação Russa). A descoberta é comprovada através de vários testemunhos que confirmam inclusive algumas mortes. É referido que não se sabe há quanto tempo a situação possa estar a durar e por quanto tempo mais irá permanecer, sem a imputação de responsabilidades, quer diretas ou indiretas. Os dirigentes políticos descartam-se de responsabilidades, negando a existência deste tipo de campos. O presidente checheno chega mesmo a afirmar que não há homossexuais na Chechénia e se os houvesse, seriam deportados.
Ora, numa análise atenta, filosofemos.

- Com que direito se pode restringir o direito à vida, consoante a orientação sexual?
- Se antes se ambicionava uma supremacia da raça ariana, permitiremos agora uma supremacia de heterossexuais em pleno mundo cosmopolita?
- Com que direito se pode torturar até à morte em prol da cultura vigente?
- E as restantes culturas não têm uma palavra de ordem?
- Criar campos de concentração para gays, é errado ou é relativo?

Sabendo que não estamos a falar do passado mas sim do presente, importa urgir um pensamento crítico e filosófico que exponha a questão retratada.
Primeiramente, do ponto de vista do etnocentrismo, ao avaliar a situação do mediante o prisma cultural daquele país, é legítimo a abolição e não manifestação de comportamentos homossexuais, dado que isso faz parte da sua identidade, e é uma norma (supostamente moral) vigente. No entanto, este comportamento identitário é um meio de dominação que pode levar ao extermínio de grupos HUMANOS.
Por outro lado, avaliando a situação do ponto de vista do relativismo cultural, as práticas sucedem-se na continuidade de hábitos e tradições, enquadrando-se na cultura vigente e só no seio dessa mesma cultura podem ser criticados e julgados. Portanto, neste sentido, nós portugueses e ocidentais estaríamos impedidos de condenar a criação destes campos de concentração e de criticar atos que embora aos nossos olhos pudessem parecer  imundos e macabros, do ponto de vista intrinsecamente identitário da cultura vigente são moralmente corretos e aceitáveis, respeitando a tradição e hábitos que a caracterizam.

Sendo assim, qual o limite da tolerância? Os homossexuais merecem estar todos em campos de concentração? Ou é nosso dever agir e condenar os atos de uma outra cultura? O direito à vida não se sobrepõe aos valores culturais?

Claramente, estamos perante um caso que viola o bem-estar das pessoas envolvidas e põe em causa a dignidade e integridade da humanidade. Urge falar-se de critérios transubjetivos, que se sobreponham à relatividade e diversidade de culturas e que tomem como primeira conta os direitos humanos.

“Os atos do tipo praticados pela Alemanha nazi contra judeus, ciganos e homossexuais (…) não são elementos de uma cultura distintiva que valha a pena preservar, e não é imperialista afirmar que lhes falta o elemento de consideração pelos outros que se exige a qualquer ética justificável.” (SINGER, Peter. Um só mundo. A ética da globalização. Lisboa: Gradiva, 2004, pp.195-196.)

Como Peter Singer reconhece, é a aceitação pelos demais que justifica o poder da ética. Relembrando-nos o imperativo categórico de Kant: Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne lei universal. (KANT, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos Costumes. Trad. Paulo Quintela, Lisboa: Edições 70, 1991, p.68.)

Imaginem agora que por acaso os vossos filhos são homossexuais, quereríamos nós que todos os homossexuais fossem mandados para campos de concentração?
É urgente sobretudo pensar, para bem agir! Agir em prol da liberdade, agir em prol de nós, HOMENS! “O meu futuro será de vergonha se o meu presente for de indiferença. in Aristides – O Musical

Não fiquem indiferentes, assinem a petição para acabar com esta prática discriminatória e desumana, aqui.
Nota: Na medida em que nesta notícia se aborda a tortura, morte e preconceito contra os homossexuais, a mesma lógica pode-se debater face a outros grupos e situações que são menosprezados e banidos nos dias de hoje. São disso exemplo as mediáticas discussões acerca do acolhimento dos refugiados ou comportamentos que assolam os direitos humanos em países da África ou até o exemplo do tratamento das mulheres na Arábia Saudita.  

Susana Pais

(Licenciada em Filosofia com Mestrado em Ensino de Filosofia no Ensino Secundário pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra).

Exercício prático para sala de aula: Colocar as 5 questões enumeradas no início deste texto no quadro e cada aluno deve escolher uma para responder oralmente e expressar o seu pensamento crítico e posição pessoal, devidamente fundamentada. No fim de toda a turma partilhar os seus argumentos e de o professor registar os pontos principais de cada resposta, poder-se-á fazer um debate, dividindo os alunos consoante as convicções que demonstraram defender e acreditar, contrapondo-as.